As janelas fechadas de Josué Montello

Em 15 de março de 2018, a convite da amiga Joseane Souza, diretora da Casa de Cultura Josué Montello, estive no Centro Integrado Rio Anil (Cintra), para participar do lançamento da nova edição do livro Janelas Fechadas, primeira obra romanesca escrita por Josué Montello há oito décadas, pois a redação original é de 1938, quando o polígrafo maranhense estava com pouco mais de vinte e um anos.

O livro foi publicado três anos depois, em 1941.

Essa narrativa do jovem escritor ganhou nova versão em 1982, quando foi reeditada com quase total reformulação nos aspectos narrativos, sem prejuízo para as tramas que movem o destino das personagens.

Janelas Fechadas não é um dos mais lidos, comentados e analisados livros de Montello.

Em geral, a obra poderia ser vista apenas como uma curiosidade, como o livro de estreia de um prosador que depois iria fazer sucesso com livros como:

  • Os Tambores de São Luís,
  • Noite Sobre Alcântara,
  • O Silêncio da Confissão
  • e Cais da Sagração.

Porém, ao reescrever seu livro de estreia preservando-lhe apenas algumas linhas iniciais e alguns do desfecho, Montello deixava claro que Janelas Fechadas não poderia ser tratada apenas como uma efeméride e que deveria ter seu valor reconhecido pela posteridade.

O ilustre crítico literário Tristão de Athayde, ao comentar o livro, vaticinou que Janelas Fechadas não iria “ocupar , no mundo romanesco de Josué Montello, o mesmo posto de eminência dessa série sensacional de romances de sua maturidade, a partir de Os Degraus do Paraíso”.

Se por um lado isso é verdade, por outro há de ser lembrado que, que embora não tenha a densidade narrativa de outros títulos posteriores do prosador maranhense, seu romance de estreia não é desprezível e apresenta grandes qualidades narrativas e estéticas.

Com esta nova edição (SECMA, 2017, 212 páginas) Janelas Fechadas, que já estava na condição de obra raríssima, pode ser relida pelas novas gerações e pode voltar a ser discutida nas rodas de conversas literárias.

Publicado sob os auspícios da Casa de Cultura Josué Montello, com a coordenação editorial de Joseane Souza e de Wílson Marques, com uma diagramação leve e capa assinada por Albani Ramos, o livro tem uma estética agradável. Um bom estímulo para a leitura.

O local escolhido para o relançamento do livro – Centro Integrado Rio Anil, se deu por canta de que quase a totalidade da narrativa se passa na Vila do Anil, o hoje bairro do Anil, onde está situada a escola. E foi em seus arredores que acontece parte do drama de Maria de Lourdes Silva, a protagonista da história e que no decorrer do livro é tratada geralmente pelo hipocorístico de Benzinho.

A história traz as marcas da leveza e da simplicidade, embora apresente também momentos de grande tensão. O texto tem início quando Benzinho, sua mãe (Dona Binoca) e seu irmão (Juca) mudam-se da Praça da Alegria para um chalé alugado no Anil.

Mestre na descrição, Montello aproveita para desenhar com palavras a casa na qual a família irá passar seus dias a partir de então:

Era uma pequena casa de teto, com uma porta ao centro da fachada e duas janelas laterais guarnecidas de rótulas. Muito comprida, parecia não ter fim, envolta pela farta folhagem de árvores e trepadeiras que se alastrava ao longo do terreno (p. 07).

Plateia no Centro Integrado Rio Anil, na ocasião do lançamento do livro. Fonte da imagem: Site do Governo do Estado do Maranhão

Mas, possivelmente o que mais interessava à pequena família era o fato de a casa mais próxima estar situada cerca de cem metros do chalé. Era preciso privacidade, pois ali iria se esconder um grande segredo que precisava ser guardado dos olhos perscrutadores de possíveis vizinhos.

Aos poucos, o narrador vai permitindo que o leitor comece a desnudar os segredos daquela família.

O falecido pai aparentemente era um homem revoltado com o sistema político e que lia livros que tiveram que ser destruídos, pois poderiam “comprometer toda a família” (p. 30).

Juca, o irmão de Benzinho, nutre pela irmã uma admiração que ultrapassa os limites da relação fraternal e, como forma de autoproteção, prefere sair de casa e tentar ganhar a vida no Rio de Janeiro.

A pacata Dona Binoca é uma espécie de mediadora dos conflitos que aparecem no romance. É uma mulher inteiramente dedicada à família e que tem como grande dom compreender o próximo.

Para ajudar a compor o cenário narrativo, Montello cerca esse núcleo familiar de personagens que se completam, como é o caso da bondosa e solidária Maria das Virgens, uma mulher humilde que sempre perde as pessoas amadas; a bela Esmeralda, que praticamente vive de alugar seus amores a homens da alta sociedade; o galanteador Doutor Crispim, que vem em toda mulher um alvo a ser conquistado; a sempre desconfiada Aldenora, esposa do Dr. Crispim, que está sempre pronta para
defender seu lar com força de seus braços; a irascível Madre Prefeita e a atenta Madre Peixoto, educadoras do tradicional Colégio Santa Teresa, no qual a protagonista estudo e no qual, por sua condição não e bem vista pela corpo gestor.

Essas e outras personagens secundárias servem para tecer a trama que arrastará Benzinho em um turbilhão de acontecimentos sobre os quais ela nem sempre terá controle.

Mas qual será o motivo que levou aquela família a deixar a bela casa da Praça da Alegria e viver no remanso do Anil? Que será que eles têm a esconder da sociedade da época?

Tudo começou quando, durante uma festa, a protagonista, cuja beleza física é destacada ao longo de toda a narrativa, com insinuações de que ela teria chances de concorrer inclusive ao título de Miss Maranhão, foi seduzida, com promessas de casamento, por um homem casado, “um senhor moreno, de cabelos grisalhos à altura das têmporas, entre trinta e cinco e quarenta anos” (p. 21), que, sabedor da ausência de Dona Binoca em casa, deflora Benzinho, com promessas de que, assim que se livrasse da esposa – hipoteticamente enferma – voltaria para desposar a garota.

A ardente declaração de amor, o momento de sexo e um pedido para que a jovem nunca falasse sobre ele com as demais pessoas, fazem com que Benzinho tenha que carregar sozinha o mistério que cerca sua vida.

Todos querem saber quem é o pai da criança que Benzinho carrega no ventre.

Porém ela, fiel à palavra dada, nada diz, e a família terá que procurar refúgio em um local afastado da cidade, indo morar no Anil, onde novos desafios irão aparecer.

Montello aproveita a situação delicada por que passa sua personagem para retratar detalhes da sociedade maranhense das primeiras décadas do século XX, as brincadeiras, as fofocas, os folguedos
e a rígida educação formação formal são esmiuçadas com toques de realismo e piadas de ironia.

A narrativa inteira é centrada nas figuras femininas. São as mulheres que ocupam o centro da narrativa.

Benzinho defende ideias e tem algumas atitudes que chocam a conservadora sociedade ludovicense da época, mas que hoje podem ser vistas como espécie de sementes da corrente feminista.

Em determinada passagem da obra, ao comentar sobre o comportamento da protagonista, uma
personagem diz que:

As moças de hoje são diferentes das moças de nosso tempo. Querem ser modernas demais. E nós, mães, baixamos a cabeça. É o jeito (p. 117).

Assim como fizemos na ocasião do lançamento da obra no Cintra, também aqui não iremos adiantar o que acontece na obra, pois o nosso papel não é substituir, mas sim estimular a leitura de livros de
nossos autores.

Lembro que na ocasião, a plateia, composta por quase duas centenas de alunos somados a professores, corpo diretivo e demais convidados do evento, ficou com a dúvida sobre qual seria o destino de Benzinho.

Espero que de lá para cá alguém tenha lido o livro e descoberto o que aconteceu com a personagem e com seus familiares.

Inteligentemente, o autor do romance optou por um desfecho que só tem sentido quando integrado a toda a trama que o antecede. Desse modo, não adianta ir ao final da obra para conhecer o final.

O interessante é saborear cada página, sorrir, sofrer, dançar e até mesmo chorar com essa personagem que, embora não tenha sido explorada profundamente em sua complexidade, vem prendendo e encantando os leitores ao longo das últimas sete ou oito décadas. Boa leitura!

Texto: JOSÉ NERES – Professor de Literatura, membro da Academia Maranhense de Letras (cadeira 36), membro-convidado da Sociedade de Médicos Escritores (Sobrames) e membro correspondente da Academia Itapecuruense de Ciências, Letras e Artes (Aicla).

Revisão: GABRIEL BARROS – Estudante de Jornalismo da Faculdade Estácio.

By | 2018-03-26T16:53:57+00:00 Março 26th, 2018|Notícias|